FILHA DA PAUTA

Naquele dia, ela pegou o violão. Tinha estado ali, sentada, numa manifestação de resistência silenciosa contra o que poderia a ser o resultado das eleições. O cabelo de cor marcante, o jeito calado e a forma como quase tentava ficar invisível e fora do foco me chamaram a atenção.
Naquele dia, notei algo diferente. Assim sem mais, notei que não ia conseguir dormir se não tomasse um bom banho. E aí, num clique muito doido, lembrei que tinha sido assim nos vinte dias anteriores (sim, contei!). E me dei conta de que não conseguia mais dormir sem tomar banho.
Ouvira tempos atrás a declamação de um poema cujos versos principais diziam que nada tinha poder maior de colocar a gente pra pensar do que uma janela de ônibus. “Janela de ônibus é um trem danado pra colocar a gente pra pensar.” Virada de ano é pior, pensa ela.
Na correria daquela manhã, o café desceu a vácuo pela garganta. O sono ainda imperava e até o cabelo estava custoso (como sempre!) de pentear. Não olhou pela janela nem viu se tinha sol.